Médico também é gente!

Médico também é gente!

 

Escuto toda hora gracinhas do tipo “médico é que tem vida boa”, “Médico é tudo rico” …
. Em todo lugar (no Brasil pelo menos) ha uma idéia de que todo mundo que é Dotô, é rico!  Gostaria de saber em que planeta que essas pessoas vivem.

Em primeiro lugar, médico só sabe ganhar dinheiro dando plantão ou fazendo cirurgia ou em consultório.

Segundo que, salvo raras exceções (tipo como acontece no futebol onde não é qualquer um que tem salários milionários e vive como rei) os plantões não pagam bem não. Um recém formado hoje (pense que esse cara e dedicou o segundo grau inteiro pra passar no vestibular de medicina – que geralmente tem uma relação candidato-vaga em torno de 100/1 – depois; se ele conseguiu passar de primeira e sem fazer cursinho pré-vestibular, que também custa uma nota, ele entra na tão sonhada faculdade de medicina. Cada livro que temos que comprar custa no mínimo R$ 400-600. E todos os anos temos matérias diferentes e temos que estudar por livros diferentes. Seguindo adiante. Digamos que ele conseguiu chegar no 4º ou 5º ano da faculdade. Precisa adquirir experiência prática. Vai estagiar (é onde ele descobre a escravidão de jaleco). Depois de muito suor, sangue e lágrimas se ele consegue se formar médico, agora tem que enfrentar uma prova pior que a do vestibular chamada “Residencia” onde dependendo da especialidade a relação candidato-vaga tb é terrível. Quando você acha que as coisas não podem piorar eu te digo: “nada está tão ruim que não possa piorar”.

Não basta apenas passar numa prova massacrante que só tem questões de múltipla escolha perguntando rodapé de livro. Você tem que passar na “Entrevista” cuja
nota não tem como ser avaliada. É completamente subjetiva e sem critério. Até porque em muitos lugare
s ela se dá numa sala fechada, o aluno sozinho com os professores daquele departamento ou escola.  Agora vou jogar a merda no ventilador. Tem muitos lugares onde na entrevista eles só deixam entrar quem eles querem (geralmente o aluno que estudou naquela instituição). Chega ao escrúpulo de existirem “aulas secretas” que são dadas na calada da noite só para os alunos da própria instituição. Isso não é fantasia. Já vi muito disso.
O mais ridículo de todas que eu vi foi na prova de seleção para residentes de cir. plástica de um renomado médico no RJ. Na época eu namorava uma médica que fez a prova (por isso sei de alguns desses detalhes). Depois da prova escrita (cuja nota não é divulgada; e muito menos o gabarito) vem uma entrevista bem franca onde a primeira pergunta é: “quem foi que te indicou para cá?” O famoso QI. Quando viram que ela era uma simples mortal falaram desse jeito: “olha, pra esse ano eu já tenho a vaga prometida pra fulana. No ano que vem minha cunhada já me pediu. Talvez no próximo ano eu possa ver o seu caso”

Voltando agora pra vida de Doutô. Supomos que o médico recém formado passou na prova de residência. Agora ele é oficialmente mais medíocre do que o cocô do cavalo do bandido. Nem o estagiário de medicina é tão humilhado pelos médicos mais antigos. Sem falar na hierarquia. O Staff é o Deus. O R3 (residente de 3º ano) é o Fodão; quase um Staff. O R2 é quem toca o serviço com a orientação do R3 (que teoricamente está em aprendizado ainda). O R1 coitado, é o capacho. Fica com todo trabalho braçal, emburrecedor e humil
hante. Geralmente são coisas como ficar preenchendo papelada, fazendo burocracias, curativos, dando recados, e qualquer outra forma de
desmerecer alguém que conseguiu um diploma de médico.

Ah, quase me esqueci. A carga horária. Diz a regra que o residente não deve trabalhar mais do que 60h semanais (que já é puxado). Bom, na maioria dos serviços de residência (principalmente na área
cirúrgica) é bem
comum o R1 trabalhar bem mais do que 80h semanais. Já o R2 trabalha menos. O R3 praticamente não se estressa e o Staff fica de sobreaviso. OBS: sempre lembrando que toda regra tem sua excessão, mas na maior parte das vezes é isso que acontece mesmo.

Agora pensa comigo. O R1 é o que menos sabe e é ele quem fica a madrugada inteira acordado cuidando de vários pacientes graves. É o que tem maior chance de cometer um erro e o que fica mais cansado (porque no dia seguinte ele não vai pra casa dormir não; tem que passar visita nos seus pacientes, discuti-los com o R2, preparar a apresentação do caso clínico para ser discutido na frente de todos os Staffs e residentes e etc.

Fiquei com pena, vamos passar essa parte tão sofrida da vida do miserável. Imaginem agora que ele conseguiu terminar a residência. Imagina só como se sente! Um Deus, né? Sobreviveu a 6 anos de Faculdade, 3 anos de residência, comendo o pão que o Diabo amassou, cuspiu, rasgou e pisou e agora é um especialista. Está pronto pra ganhar rios de dinheiro (pensa ele).

Agora ele tem que encontrar um emprego. Onde? Ou fazendo plantão (que paga entre R$ 50-100/hora) ou em consultório.

Detalhe; pra começar um consultório próprio tem que gastar muita grana. Então a grande maioria entra como empregado numa clínica e lá trabalha pra ganhar em torno de R$ 40-50 por consulta do plano de saúde.

Quer cobrar R$ 300-400 por consulta, ok! Vai ver quem quer pagar isso. Só se você já tem MUITA reputação E experiência de sobra.

Então os primeiros 10 anos de um médico recém egresso da residência são muito duros. Tem que trabalhar na clínica, fazer plantão e ainda tentar fazer mais alguma coisa por fora.

Voltando pro ponto inicial. Aí você chega numa roda de conversa durante uma tarde com amigos tomando um chope e sempre vem aquele IMBECIL com a gracinha: “Ah, você é médico, então pode pagar pra todo mundo”