Histórico

SOBRE A MME

As dores musculoesqueléticas (DME) estão entre os problemas mais comuns na Atenção Primária à Saúde (APS) e contabilizam uma grande proporção da carga de trabalho do médico de família e comunidade (MFC). Tem se tornado cada vez mais prevalentes devido ao aumento da expectativa de vida, ao estilo de vida sedentário, ao aumento do número de horas/dia que se trabalha sentado, a falta de cuidados com a ergonomia dentre tantas outras causas.

A APS tem um importante papel na prevenção de agravos e promoção de saúde ao longo da vida de um paciente. Modificações no estilo de vida para muitos pacientes com condições crônicas como cessar de fumar, redução do consumo de álcool, iniciar atividades físicas, alimentar-se de forma saudável são todas competências do MFC atuando na APS capazes de reduzir o risco de quedas e fraturas patológicas, incidência de osteoporose, progressão de artrose precocemente, redução de lesões por esforço repetitivo e descondicionamento.  Estudos de base populacional demonstram que as dores de origem musculoesqueléticas apresentam baixa resolutividade na APS e geram gastos excessivos para os sistemas de saúde.

O modelo de abordagem ortopédica predominante nas escolas médicas é pautado no uso de manobras semiológicas e exames de imagem que tem finalidade de identificar alterações estruturais do aparelho locomotor. Tais alterações, em geral, tem relevância clínica limitada para o manejo destes problemas e geram um alto grau de medicalização social. Avaliação e manejo adequado das dores podem não apenas melhorar a qualidade do cuidado, mas também elevar a satisfação com o trabalhador, reduzir a incidência de dor crônica e perdas em produtividade.

Em 2010, quando comecei a me interessar por este assunto, minha primeira atitude foi a de buscar uma formação ou treinamento formal para saber e resolver mais. Descobri que não havia nenhum curso no Brasil a respeito de MME feito por MFC para MFC.

Pesquisando sobre cursos e pós-graduações em MME fora do Brasil, descobri ainda que pouquíssimos países do mundo  ensinam a avaliação e manejo de DME de forma integrada com as diversas especialidades e sistematizada para os alunos da graduação. Geralmente aprendem com ortopedistas e/ou com reumatologistas sobre as DME mas com o foco nas suas respectivas áreas de atuação.

Foi durante essas pesquisas que descobri a organização: “The Bone and Joint Decade”; uma iniciativa global para sensibilizar governos e nações da problemática da DME.

O médico de família não precisa tornar-se um ortopedista, para atender alguém com dor nas costas; da mesma forma como não é preciso tornar-se um pediatra para fazer uma puericultura, um obstetra pra fazer um pré-natal ou um cardiologista para atender um hipertenso.

Sendo assim, resolvi “começar do zero”; estudando bibliografias, artigos, palestras, cursos, acompanhando especialistas, fazendo resumos e mais resumos e colocando em prática no centro de saúde onde trabalho até hoje. Com o apoio de profissionais de diversas áreas (fisioterapia, ortopedia, acupuntura) fui ganhando experiência. Aprendi um pouco com cada um, e com a formação em MFC, consegui encontrar uma maneira de usar o conhecimento aprendido sem perder a identidade de especialista em Medicina de Família e Comunidade. Em outras palavras, consegui agregar os conhecimentos dessas diversas áreas na consulta do médico de família com todas as suas características peculiaridades. Esta percepção  mudou drasticamente a forma de enxergar e examinar meus pacientes. Sendo assim foi possível realizar atendimentos de forma qualificada técnicamente sem deixar de ser empático, abordar de forma integral, contextualizado, mantendo a longitudinalidade do atendimento na APS, prestar orientações sobre prevenção de futuros agravos e sugerir mudanças para promover de saúde.

Os resultados são inacreditáveis!

Com o somatório de todos os saberes agregados ao longo destes  anos de prática em MME na APS, a diferença na abordagem e no olhar de uma pessoa com DME mudou completamente e de maneira definitiva. Não ha mais como voltar a ser como era antes. Identificando o problema , examinando cuidadosamente sua postura, palpando sua musculatura, avaliando sua amplitude de movimento e a biomecânica envolvida no processo doloroso, testando a força muscular e as assimetrias no exame físico, a necessidade de solicitar exames complementares praticamente some da rotina do MFC.

Nos últimos anos, reduzi em quase 90% os encaminhamentos para especialistas pois estava conseguindo resolver os problemas com mínimas intervencões.

Se eu faço assim, outros MFC também podem fazer. Ninguém ensina isso tudo que eu tenho visto e feito. Preciso ensinar o que aprendi!

“Juntei toda a minha bagagem de experiências, meus conhecimentos teórico e prático, acrescentei as ferramentas metodológicas ensinadas no EURACT, elaborei um currículo de habilidades, conhecimentos, atitudes e competências a serem adquiridas pelo MFC no curso e criei uma nova edição (2ª edição do curso), com muito mais atividades práticas. Disso elaborei meu projeto de conclusão do nível 3 do EURACT que nada mais são do que os cursos de MME para a APS. Atualmente estou desenvolvendo uma pesquisa para avaliar o impacto deste treinamento (nível 1, 2 e 3, que juntos correspondem a 3ª edição do curso) do MFC que atua na APS. Essa pesquisa em breve será concluída e publicada.”

Gostaria de aproveitar e agradecer a todos os profissionais que a vida colocou no meu caminho e me ajudaram a melhorar a minha prática diária como médico.

Alexandre Fortes
Médico de Família
Autor do Curso Medicina Musculoesquelética